quinta-feira, 11 de maio de 2017

Neofariseus




Dentre as muitas tretas teológicas que tenho visto neste imenso espaço virtual, em muitas delas estão envolvidas os chamados "neoreformados". São cristãos que dizem abraçar os cinco solas, citando sempre figuras nominais da história da Igreja, como Calvino, Lutero, Spurgeon, entre outros. Parecem viver em uma era distante, sempre críticos ao atual estado da Igreja brasileira. (Neste último ponto tenho que concordar.) Costumam usar um linguajar mais rebuscado e, não obstante, muitos deles são adolescentes.

Creio serem indiscutíveis os frutos que a Reforma Protestante trouxe para o nosso meio cristão. Se ela não existisse, provavelmente estaríamos comendo o capim ofertado por uma Igreja que se corrompeu de maneira severa. De qualquer maneira, o Senhor, em sua absoluta soberania e graça, poderia utilizar outros homens para a reestruturação da mesma, que está edificada na Rocha que é o Senhor Jesus, e não homens que, apesar de seus legados, também são falíveis como eu e você.

A impressão que eu tenho é que eles não são somente objeto de, no máximo, admiração e referência, mas de veneração. Já vi o circo pegar fogo em uma discussão sobre o fato de que Spurgeon fumava. Como se o Príncipe dos Pregadores jamais pudesse falhar em sua caminhada vitoriosa. Enquanto isto, vejo nestes embates acalorados pessoas sendo julgadas por pecados que sequer cometeram, sem que suas declarações ou atitudes fossem analisadas à luz das Escrituras ou até mesmo do presente contexto: basta ser do século XXI para ser apedrejado. São os guardiões da fé, cães raivosos prontos a latirem e morderem todo aquele que não se encaixarem em sua "sã doutrina".

Parecem que fazem parte de uma Gestapo, de uma polícia do "teologicamente correto". Duvido que tenham levado o Evangelho a uma favela, zona rural ou povo estranho ao evangelicalismo brasileiro que, por ironia, é muito mais parecido com a cultura americana do que com a cultura do Reino de Deus.

Relevam o contexto social em que seus ídolos do passado estavam inseridos, mas descaradamente não levam em conta este importante princípio para condenar personagens atuais ao quinto dos infernos. Pregam que a Igreja é um tribunal, indo na mesma onda legalista e perversa que transformou este país em um dos mais desiguais do mundo, onde juristas e políticos burgueses condenam o povo à mais absoluta pobreza, vivendo, curiosamente, às custas dele

Querem se sentir acima da média. Condenam quem não pensa igual a eles, usando descontextualizadamente os artifícios da repreensão. Querem que seu modelo de viver o Evangelho seja o único, não levando em conta o precioso fato de que o Senhor Jesus morreu por homens e mulheres de diferentes povos, culturas, nações. Das aldeias indígenas aos luxuosos bairros de Beverly Hills, dos círculos acadêmicos aos guetos onde impera o hip-hop e o funk, das grandes metrópoles a zonas rurais ermas onde nem se conhece o alfabeto, Ele morreu para que tivéssemos novidade de vida!

Ser reformado, pentecostal, calvinista, luterano, arminiano ou qualquer que seja o "ista" ou "ano" não é pecado em si mesmo, desde que a pessoa esteja em Cristo Jesus. Assim como ser regueiro, empresário, goleiro, filósofo ou garimpeiro. Há gente de lugares distantes que jamais ouviram falar em Lutero ou Teologia Reformada, mas que foram alcançados pela Graça, e por isto são Igreja. NEle somos um, somos corpo, somos dEle! Ser reformado pode ser bom, mas melhor ainda é ser nascido de novo!

sábado, 6 de maio de 2017

É preciso saber viver




Maio chegou. Já estamos na metade do outono, no interstício que separa o verão do inverno. Duas estações diferentes, antagônicas. Só que o sol, eterno aliado do verão, que gentilmente havia prorrogado os seus dias depois do fim daquele, resolveu ir embora. Parece que não volta mais por enquanto. E, com sua saída, veio a chuva e o que a gente considera como "frio": ventos tímidos e úmidos, um tempo melancólico que nos dá preguiça e nos obrigou a tirarmos os nossos casacos e jaquetas, que estavam há meses empoeirados em nossos guarda-roupas. 

Daqui para frente será "pior". A alegria e vitalidade dos dias ensolarados deram lugar ao prelúdio do que será o inverno. Parece que ficamos mais introspectivos, sensíveis. Dá mais trabalho para sair da cama. Deseja-se dormir mais, ficar mais em casa para assistir filmes, namorar, comer café com biscoito, o que quer que seja, desde que não gaste energia. Afinal de contas, o sol que nos desperta cedo e nos dá forças para ir à academia já não está mais. Quem será seu substituto? Teremos, agora, que tirar forças de nós mesmos.

Além disto, há a crise econômica. O trabalhador está sentindo no bolso os desastrosos efeitos da má administração pública e da corrupção desenfreada. Com menos dinheiro, somos obrigados a poupar, gastar menos, cortar supérfluos - aliás, muitas coisas que achávamos indispensáveis agora se tornaram supérfluas. Reinventamos o cotidiano, damos valor às coisas que não precisam ser pagas, nos contentamos com menos, descobrimos que não precisamos de dinheiro e comprar coisas novas para sermos felizes. É bom para a alma e parece simples assim. Mas não é

São épocas distintas do que idealizamos como a vida perfeita na Terra. Mas todos nós passamos por isto - e devemos. O homem necessita readaptar-se, adequar-se a situações contrárias para sobreviver. Se queremos ser resilientes, precisamos viver momentos totalmente adversas às estruturas às quais estamos acostumados. E é daí que encontramos forças que acreditávamos não existir. Damos valor a coisas e momentos que achávamos que não valiam nada. E a escassez gera em nós virtudes, oriundas do jejum de abundância de energia e do material.

No livro de Eclesiastes, encontramos uma lindíssima poesia que diz que há tempo para tudo. Em seus versículos (3:1-8), verbos de ideias totalmente antagônicas expressam um maniqueísmo inevitável a todos os seres viventes. Não há como fugir desta realidade. Se hoje há crise financeira, já houve tempos de abundância, nos quais soubemos viver moderadamente ou desperdiçamos nosso dinheiro - e, por isto, muitos estão sofrendo hoje. O frio chegou a muitos estados do país, que há pouco tempo atrás também vivenciaram o calor. 

Nossa esperança está na eterna morada celestial, na qual não haverá tristeza nem choro (Apocalipse 21:3-4). Enquanto estivermos aqui, nesta carcaça mortal e corruptível, devemos ser fortes e cientes de que, em qualquer situação adversa, Ele estará conosco. Sempre.